Vou começar com uma confissão que talvez não me deixe muito bem na foto: quando ‘From The Dark’ foi anunciado, minha primeira reação não foi de empolgação, mas de um certo incômodo. Tinham se passado só alguns meses desde ‘Back To The Beginning’, desde aquela tarde em Villa Park em que o Black Sabbath se despediu com Ozzy Osbourne sentado em um trono, e depois veio a notícia que todos temíamos e que ninguém estava pronto para ler. Parte de mim sentia que aquele tinha sido o final certo, o fechamento perfeito de uma história que começou em Aston no fim dos anos sessenta, e que qualquer coisa que viesse depois seria um epílogo desnecessário. Eu estava meio errado, e essa é a forma mais honesta de resumir o que este disco me causou depois de vários dias ouvindo em casa, no carro e com fones de ouvido em horários em que ninguém deveria estar acordado.
É preciso entender como este álbum é raro dentro da carreira de Tony Iommi. Em mais de cinquenta anos, o homem lançou apenas três discos com o próprio nome na capa. ‘Iommi’, em 2000, foi uma espécie de festa com convidados, com um cantor diferente em cada faixa, e embora tivesse momentos muito bons, soava mais como um catálogo de amizades do que como uma obra. ‘Fused’, em 2005, foi outra coisa: um disco a quatro mãos com Glenn Hughes que, com os anos, ganhou um pequeno culto, e com razão. Depois disso, Iommi dedicou toda a sua energia ao Heaven And Hell e ao retorno do Sabbath, então esses vinte e um anos de silêncio solo não foram de inatividade, e sim de alguém ocupado sendo a espinha dorsal de duas das bandas mais importantes do gênero. Por isso ‘From The Dark’ chega carregado de uma pergunta que não tem nada a ver com nostalgia: o que Iommi faz quando não tem o Sabbath atrás dele, quando já não existe uma história coletiva a proteger?
A resposta começa pelo vocalista, e aqui preciso admitir que Jørn Lande nunca esteve entre os meus cantores favoritos. Sempre o respeitei pelos discos com o Masterplan e pela carreira solo, mas o jeito dele de cantar, tão abertamente devedor de Ronnie James Dio, às vezes me soava mais como fantasia do que como personalidade. Lande já tinha cantado ao lado de Iommi e Geezer Butler na homenagem a Dio no festival High Voltage de 2010, uns dois meses depois da morte de Ronnie, e imagino que algo daquela noite ficou gravado em Iommi durante dezesseis anos. O que me surpreendeu em ‘From The Dark’ é que Lande não aparece como um cantor contratado: ele escreveu todas as letras e divide os créditos das oito faixas, e isso se percebe na maneira como as melodias vocais foram pensadas para encaixar nos espaços que o riff deixa, e não por cima dele. Completam a banda Becky Baldwin, baixista do Mercyful Fate, e Karl Brazil, um baterista com longa carreira no pop que aqui soa surpreendentemente à vontade, enquanto Mike Exeter, velho parceiro de Iommi que já tinha trabalhado em ’13’, coproduz e cuida dos teclados.
Quando ‘Over The Violent Sun’ começa, acontece algo que me acontece com pouquíssimos guitarristas: reconheço Iommi antes de conseguir explicar por quê. É aquela afinação grave, aquele ataque levemente arrastado, aquele jeito de deixar a nota apodrecer um pouco antes de soltá-la. A gente conhece a história das pontas dos dedos que ele perdeu numa fábrica aos dezessete anos, dos dedais improvisados, das cordas mais finas e afrouxadas para conseguir continuar tocando, e é impossível não pensar que todo o som do heavy metal nasceu de um acidente e da teimosia de um garoto de Birmingham que se recusou a largar a guitarra. Meio século depois, esse mesmo som abre o disco com um riff de andamento médio com cheiro de anos oitenta, e o que mais me prendeu, curiosamente, não foi a guitarra, mas o baixo de Baldwin, que em vez de dobrar o riff caminha por conta própria e dá à música um balanço que eu não esperava. É uma daquelas decisões que só se notam prestando atenção, e que separam uma banda de um guitarrista acompanhado por músicos de estúdio.
Com ‘Black Times’, o disco afunda. Não encontro outra palavra. O andamento cai até se arrastar e em alguns momentos senti que estava ouvindo o Candlemass dos primeiros discos, o que tem uma bela ironia, porque o Candlemass não existiria sem a música que Iommi escreveu em 1970. Lande canta sobre um mundo que acaba com uma gravidade quase litúrgica, e justo quando achei que a faixa ia ficar presa naquele pântano, Iommi abre uma porta para uma passagem limpa, quase de balada, com guitarras que ressoam como sinos distantes. Essa virada me lembrou por que sempre defendi os discos do Sabbath que as pessoas esquecem, os da fase com Tony Martin, como ‘Headless Cross’ ou ‘Tyr’, em que Iommi se permitia essas mudanças de atmosfera sem pedir licença. Muitas bandas de doom de hoje passam décadas repetindo a parte pesada da fórmula e esquecendo que o mestre sempre soube a hora de aliviar a pressão.

‘World Alone’ foi o primeiro single, e na primeira vez que ouvi, em julho, achei correta e pouco mais que isso. Dentro do disco, porém, cresce demais. O riff picotado, que avança e freia como se alguém puxasse o freio de mão de um caminhão de carga, me leva direto à época de ‘Sabotage’, e os solos que Iommi encaixa entre os versos estão entre os melhores que ouvi dele em anos: melódicos, sem pressa, com aquela sensação de que cada nota foi escolhida e não simplesmente tocada. Aqui Lande brilha de verdade pela primeira vez, com uma interpretação quase operística que, admito, me fez rever meus preconceitos sobre ele. Ele não é Dio, nem tenta ser neste momento, mas tem fôlego e teatralidade para encarar um riff desse tamanho sem ser esmagado.
‘Beyond The Dead’ foi a surpresa que eu não vi chegando. Tem um gancho melódico tão grudento que em alguns momentos a música parece flertar com algo de cabaré sombrio, uma espécie de canção de amor fúnebre enfiada dentro de uma armadura de doom, e no terceiro dia me peguei cantarolando no chuveiro, coisa que quase nunca me acontece com discos recentes de metal clássico. ‘Stormwatcher’, por outro lado, vai na direção contrária: um riff econômico, quase nu, que avança com uma lentidão deliberada enquanto a bateria de Brazil e o baixo de Baldwin ribombam como se a faixa tivesse sido gravada dentro de uma catedral. O solo dessa música está entre os mais bonitos do álbum, construído sobre frases melódicas que flutuam acima da parede sonora, e é um daqueles momentos em que a gente para de analisar e simplesmente fica imóvel.
Mas aqui preciso ser honesto, senão esta resenha não valeria nada. Entre ‘Beyond The Dead’ e ‘Stormwatcher’ comecei a sentir algo que foi crescendo a cada audição: o disco se move quase sempre entre duas velocidades, o andamento médio pesado e o passo glacial, e essa alternância se repete com tanta regularidade que em algum momento as músicas começam a se confundir. Lande não ajuda, porque o registro dele aqui oscila entre o berro a plenos pulmões e um canto dramático muito à maneira de Dio, com pouquíssimo terreno intermediário. Ouvidas separadamente, todas essas faixas me convencem, mas ouvindo de uma vez houve uma noite em que percebi que não sabia em qual faixa estava, e isso, num disco de oito músicas, não deveria acontecer. Não é um problema grave, mas é a diferença entre um bom disco e um que te persegue por semanas.
Justo quando eu começava a me conformar com essa inércia, chega ‘Death Wake’, que para mim é o coração emocional do álbum. É o mais perto de uma power ballad que o disco tem, embora o termo fique pequeno: é mais uma marcha fúnebre, delicada na estrutura, em que a banda sobe e desce com uma precisão que denuncia horas de ensaio. Lande canta aqui com uma contenção que não mostra em nenhum outro momento, e é a melhor interpretação dele no disco inteiro, sem discussão. E então aparece Brian May, com aquele som tão reconhecível, fluido, quase orquestral, que contrasta lindamente com o ataque mais áspero de Iommi. Iommi já contou que pediu a May para tocar em mais músicas e que o amigo de quase sessenta anos recusou, dizendo que o disco era dele. Entendo a gentileza, mas depois de ouvir como essas duas guitarras dialogam, fiquei pensando no que poderia ter sido um álbum inteiro com essa conversa. Não consigo ouvir ‘Death Wake’ sem pensar em tudo o que Iommi perdeu nos últimos anos, Dio, Ozzy, e embora o disco nunca diga isso de forma explícita, essa música carrega esse luto de um jeito que me pareceu genuíno e nada calculado.
‘Return Of The Arbalist’ é a faixa de que o disco mais precisava e a que eu mais agradeci. Finalmente o andamento sobe, a música galopa como um clássico do heavy metal britânico do começo dos anos oitenta, e Iommi entorta e sustenta as notas com um prazer que se ouve. Baldwin e Brazil empurram com um swing que não aparece em nenhum outro ponto do álbum, e durante alguns minutos ‘From The Dark’ quebra completamente a fórmula que vinha prendendo o disco. É uma música que me deixa com uma sensação agridoce, porque prova que a banda podia se mover com muito mais liberdade e que, por algum motivo, escolheu não fazer isso com mais frequência.
E então chega ‘Legacy’, pouco mais de sete minutos que justificam sozinhos a existência deste disco. O riff descendente que a abre é enorme, daqueles que parecem descer uma escada rumo a um porão sem fundo, e a referência é inevitável: isto é a época de ‘Mob Rules’, isto é ‘Sign Of The Southern Cross’ na versão de 2026. Lande entrega aqui a interpretação mais próxima de Dio de toda a sua carreira, e o curioso é que, nesse contexto, isso não me incomodou nem um pouco, porque soa menos como imitação e mais como uma homenagem consciente, como se a música fosse um lugar onde Ronnie ainda tem permissão para morar. Baldwin toca um baixo que funciona como contraponto e não como enchimento, Brazil sincopa com uma limpeza invejável, e Iommi se dá de presente dois solos, um elétrico e outro que soa acústico, ambos com uma desenvoltura que aos 78 anos deveria ser ilegal. Que o disco termine com uma música com esse título, depois de tudo o que aconteceu, não me parece coincidência, e confesso que na primeira vez que cheguei ao fim fiquei um tempo em silêncio antes de colocar o disco de novo desde o começo.
Sobre a produção, Iommi e Exeter conseguiram algo que não é tão comum em discos de veteranos: um som moderno, enorme, com as camadas bem distribuídas, que não cai naquele brilho de plástico que arruína tantos retornos de lendas. A guitarra soa gorda, redonda, com o peso exato que a gente espera, e os teclados de Exeter funcionam como névoa de fundo, mais do que como protagonistas. Minha reclamação, e não é pequena, é a duração. Oito músicas novas depois de uma espera de vinte e um anos parecem poucas, principalmente quando o próprio Iommi já contou que tem centenas de riffs guardados no celular. A edição deluxe em CD acrescenta ‘Scent Of Dark’ e ‘Deified’, as faixas que ele lançou em 2022 e 2024 ligadas às suas fragrâncias, mas já as conhecíamos e elas não preenchem o vazio de material inédito que a gente fica com vontade de ouvir.
Depois de muitas voltas, acho que ‘From The Dark’ tem mais a ver com ‘The Devil You Know’ e com os discos do Sabbath com Tony Martin do que com qualquer trabalho solo anterior de Iommi, e para mim isso é um elogio. Não é um álbum que vá mudar a história do metal, nem pretende ser; Iommi já fez isso há cinquenta e seis anos e não deve nada a ninguém. O que ele é, sim, é o retrato de um músico que continua encontrando prazer em tocar, que escolheu uma banda que o entende e que ainda é capaz de escrever riffs que deixam no chinelo guitarristas com metade da idade dele. Tem um trecho central uniforme demais e um vocalista a quem às vezes falta nuance, e por isso não o considero um clássico, mas ‘World Alone’, ‘Death Wake’, ‘Return Of The Arbalist’ e ‘Legacy’ vão continuar tocando na minha casa muito depois que passar a empolgação do lançamento, e para um disco de um homem de 78 anos que já não tinha nada a provar, não consigo pensar em prova melhor de que valeu a pena ele existir.




