Steven Wilson — ‘Requiem For A Village’

Steven Wilson – 'Requiem For A Village'
Release Date
noviembre 6, 2026
LABEL
FICTION RECORDS

A primeira vez que ouvi ‘Requiem For A Village’ foi à noite, de fones de ouvido e sem saber muito mais do que o título, e depois de dez minutos eu já estava conferindo se as janelas estavam fechadas. Não é exagero retórico. Steven Wilson fez um disco que dá medo, não pelo volume nem pelos gritos, mas pela sensação constante de que algo não está certo no lugar que ele descreve, e isso é muito mais difícil de conseguir com música do que com imagens. Depois de vários dias pensando nele, acho que é o trabalho mais estranho, mais arriscado e, para mim, o mais prazeroso dele desde ‘Hand. Cannot. Erase.’, e vindo de alguém que acompanha a carreira dele desde os tempos do Porcupine Tree, não digo isso à toa.

A mudança de rumo é radical. Há apenas um ano, ‘The Overview’ olhava para o espaço profundo com duas longas suítes de rock progressivo de manual, polidas até o último detalhe. Este nono disco faz exatamente o contrário: fica em terra firme, num vilarejo inventado perdido em algum canto das Ilhas Britânicas, isolado da vida moderna, onde a galeria local exibe pinturas de Stanley Spencer, a biblioteca guarda contos de M. R. James e Algernon Blackwood e algo muito antigo parece continuar respirando debaixo da grama. O título empresta o nome de um filme britânico de 1975, e o universo estético vem direto do folk horror dos anos setenta, de ‘The Wicker Man’ e de ‘Children Of The Stones’, a série infantil que o próprio Wilson lembra como um clássico absoluto e genuinamente assustador.

O mais interessante é como o disco foi feito. Wilson gravou no seu estúdio caseiro no norte de Londres e decidiu abrir mão da tecnologia corretiva, da afinação perfeita e de qualquer ferramenta de inteligência artificial, ficando com instrumentos orgânicos, sintetizadores analógicos, afinações imperfeitas e erros que, em vez de serem apagados, viraram novos caminhos. Ele mesmo toca violino, oboé, flauta doce e bateria, instrumentos que não domina, e explicou que queria voltar a uma música em que se ouvissem as impressões digitais. Estão com ele Randy McStine nas guitarras, harpa-lira, mellotron e acordeão, Russell Holzman na bateria e, como convidados, Adam Holzman nos sintetizadores e Katherine Priddy nos vocais. Para alguém tão obcecado pela perfeição sonora como Wilson, este disco é quase uma confissão.

Entre uma música e outra aparece a voz de David Tennant, narrando textos escritos por Andy Partridge, do XTC. Wilson procurava uma voz escocesa ou irlandesa com peso, e sua primeira opção era o poeta Ivor Cutler, até descobrir que ele tinha morrido. Acabou chamando Tennant depois de lembrar de uma foto em que o ator usava uma camiseta de ‘The Raven That Refused To Sing’, e Tennant gravou o texto enquanto filmava outra coisa e o devolveu em menos de um dia. Eu tinha medo de que a narração soasse antiquada ou teatral, e às vezes ela chega perto desse limite, mas está dosada com muita inteligência e o seu tom, a meio caminho entre um conto de fogueira e um sermão de paróquia, dá ao disco a textura de um filme para os ouvidos.

‘Swirl In A Lark’s Eye’ abre com sinos, percussões quase de conga e a voz de Tennant apresentando o vilarejo como se fosse um organismo vivo, e daí o disco se lança na faixa-título, que foi o primeiro single e que, admito, me desconcertou quando saiu em setembro. Fora de contexto, parecia uma sobra do Porcupine Tree. Dentro do álbum, faz todo o sentido: começa com uma lentidão inquietante, vai se carregando de guitarras ásperas e termina explodindo numa bateria quase funk, num riff de baixo grudento e num solo de guitarra caótico, com um peso que em alguns momentos me lembrou o doom do Black Sabbath. São oito minutos em que o vilarejo deixa de ser cartão-postal e vira ameaça.

‘The Same River Twice’ baixa a intensidade com guitarras espectrais, um vocal melancólico e cordas que giram em volta como neblina, e ‘Now Departing’ é, para mim, um dos pontos mais altos do disco. Começa com um piano que vai crescendo, tem uma melodia sincopada e muda de humor várias vezes em sete minutos, e é uma das poucas faixas em que se ouve claramente o Wilson da época do Porcupine Tree, pesado e progressivo, ainda que filtrado pela atmosfera estranha do resto do álbum. Depois vem ‘Hiraeth’, um instrumental curto e lindo de piano e guitarra cujo título, uma palavra galesa para uma saudade sem tradução exata, resume melhor do que qualquer outra coisa o clima do disco inteiro.

‘On Chapel Slope’, o segundo single, é a música que mais ficou na minha cabeça, e nem sempre de forma agradável. Começa com uma voz brilhante, quase luminosa, e no meio do caminho cai numa passagem sinistra com um canto coletivo que soa como uma procissão demoníaca e guitarras twang que parecem saídas de um faroeste amaldiçoado. É o tipo de virada que em outro disco me pareceria truque, mas aqui funciona porque o álbum inteiro é construído sobre a ideia de que a beleza do campo esconde algo podre.

‘Murmuration’ é o coração do disco e o seu momento mais bonito. É uma peça majoritariamente acústica, de sete minutos, com violões dedilhados, mellotron que cresce em ondas e a voz de Katherine Priddy se entrelaçando com a de Wilson, e mesmo assim nunca deixa de soar como se houvesse uma ameaça ao fundo, como se os pássaros do título estivessem prestes a formar uma figura que não queremos ver. É hipnótica, e é uma daquelas músicas em que a decisão de gravar com imperfeições se justifica por completo, porque esses pequenos desajustes a fazem soar humana e frágil.

‘Cursus Fingerprint’, cujo título parece aludir aos antigos monumentos neolíticos de terra que pontilham a paisagem britânica, é uma peça curta de tensão, pontuada por um tom de bateria que bate como um coração. ‘A Basket Of Bees’ é a faixa mais setentista do álbum, com um groove em 7/8 que remete a Jethro Tull, Caravan e Mike Oldfield, e uma construção que vai do sereno ao frenético, com uma ferocidade rítmica próxima do King Crimson que às vezes fica quase caricata. ‘Great Green Map’ começa como uma valsa delicada de piano, com um mal-estar latente por baixo, e cresce até se encher de vocais de apoio sobrepostos.

E então ‘Wheel’ sacode tudo. É a música mais pesada e enérgica do disco, com riffs rápidos e cheios de groove, um diálogo tenso entre baixo e guitarra, um solo longo e uma bateria cheia de estilo de Holzman, e é provavelmente a minha favorita. Minha única queixa é de sequência: ela chega tarde. Depois de uma primeira metade magnífica, mas muito contida, há um trecho no meio em que o disco pede aos gritos um sacolejo como esse, e quando ele finalmente aparece já estamos perto do fim. O encerramento, ‘The Old God Is Buried’, são dois minutos de sinos, acordes dissonantes, vozes que ressoam como ecos e cantos coletivos que soam como um ritual, e deixam o disco suspenso num pesadelo em vez de resolvê-lo.

Não é um álbum fácil, e acho importante dizer isso. Precisei de várias audições para entrar nele, o single principal pode afastar mais de um ouvinte na primeira volta, e há partes deliberadamente turvas, enterradas na mixagem ou tocadas fora de afinação, que podem soar descuidadas para quem espera o acabamento impecável de sempre de Wilson. O falsete dele continua aparecendo, embora aqui seja usado com mais medida e melhor critério do que em outros discos, e no geral o seu canto é mais contido, mais sussurrado, o que me parece um acerto total para este material.

Wilson esteve no Brasil há apenas um ano, com a turnê de ‘The Overview’, que passou pelo Tokio Marine Hall, em São Paulo, em 17 de outubro de 2025. Por enquanto, a única vez que este material foi tocado ao vivo foram as duas noites esgotadas no Royal Albert Hall, em Londres, em 28 e 29 de outubro, quando Wilson estreou músicas novas ao lado de arranjos orquestrais de ‘The Overview’ com a Parallax Orchestra e o coral SANSARA, e não há turnê anunciada para o disco. Tenho dificuldade de imaginar como ele vai levar ao palco um álbum tão íntimo e tão dependente da narração, mas se alguém sabe transformar um estúdio caseiro num espetáculo, é ele.

‘Requiem For A Village’ é um disco para habitar mais do que para ouvir, um filme de terror rural sem imagens em que cada detalhe, um sino, um erro de afinação, um canto distante, acaba fazendo parte da paisagem. Wilson passou anos trocando de pele e nem todas as suas transformações me convenceram, mas esta tem uma coerência, uma ousadia e uma beleza inquietante que fazia muito tempo eu não ouvia nele. ‘Requiem For A Village’, ‘Now Departing’, ‘Murmuration’ e ‘Wheel’ estão entre o melhor que ele escreveu em uma década, e embora o álbum peça paciência e um pouco de coragem, devolve as duas com sobra.

Steven Wilson — ‘Requiem For A Village’
'Requiem For A Village' é o disco mais estranho e arriscado de Steven Wilson, e o melhor desde 'Hand. Cannot. Erase.': uma viagem de folk horror a um vilarejo britânico inventado, gravada com instrumentos orgânicos e imperfeições propositais, com David Tennant como narrador. Exige paciência e 'Wheel' chega tarde, mas 'Now Departing' e 'Murmuration' estão entre o melhor da sua fase recente.
POSITIVO
NEGATIVO
4.5
CLASSIFICAÇÃO

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